O Velho, sim... os cabelos brancos não disfarçavam a cara de mafioso que se acentuava quando sorria. Na verdade não importa quem era o Velho, nem quanto ele tinha em sua conta corrente, mas sim o que ele tinha em seu colo: uma pasta rosa. Essa pasta rosa, a Pasta Rosa do Velho, não só era companheira permanente do velho, mas também de todos e todas. Logo ao nascer, o cidadão recebia a pasta rosa, que jamais poderia abrir, tendo como pena ter sua ignorância quebrada.
As pessoas andavam pelas ruas com suas pastas rosas freneticamente, mas naturalmente. A pasta rosa já tinha se tornado parte delas, uma extensão de seus corpos. O comprometimento de um dos braços com essa tarefa já tinha sido previsto pela sociedade e pela economia, que adaptaram-se a realidade da pasta rosa — havia até um local para a colocar dentro dos carros, ônibus e aviões públicos!
Em uma manhã típica de dia de semana, uma cidadã deparou-se com um problema: sua pasta rosa estava meia-aberta. Desesperada, tentou fechar a tal pasta, mas acabou abrindo-a completamente. Todos pararam para olhar o conteúdo da misteriosa companheira deles, que no final era o nada. Espantados, cada um abriu sua pasta rapidamente, só para concluir que também portavam nada. Os furiosos rasgaram as pastas com ódio, enquanto os mais exaltados as queimavam em fogueiras de São João.
A Revolução da Pasta, como ficou conhecida, não limitou-se aquele tempo e espaço: atingiu todoas parcelas da sociedade. Executivos, garis, políticos, donas de casa e estudantes procuravam desfazer de suas pastas o mais rápido e violentamente possível. Claro, havia quem se negava a quebrar o taboo da pasta, mas era uma minoria tão relevante quanto a agulha no palheiro. Os assessores, mordomos e amantes do Velho procuraram o iludir até quando pastas estavam sendo arremessadas contra a mansão dele. Mas a notícia um dia chegaria, e quando chegou até os ouvidos do senil, ele infartou imediatamente. Junto com a morte do Velho, a sociedade da pasta arruinou-se. Toda a organização que orbitava arredor da pasta estava condenada, uma economia de pastas estava condenada, e pior: os espaços para as pastas nos carros, ônibus e aviões estavam condenados.