Dona Iasmim, a tevê, o golpe e a sociedade nacional

Dona Iasmim estava observando o seu relógio, enquanto esperava o tempo passar: já eram 8,4, horário do jornal. Prontamente, saiu a procura eufórica de seu controle remoto, que estava logo acima da televisão. Quando o pegou, estava exausta e tonta por causa de sua ansiedade de se “informar” sobre os acontecimentos nacionais e mundiais. Caiu na sua poltrona mofada e desleixadamente ligou a tevê usando apenas um dedo. A tevê estava sintonizada em uma canal de entrevistas.

— É disso que estou falando, exatamente disso.

O entrevistado estava obviamente nervoso, remexendo-se na poltrona. Ajustou sua gravata e encarou a apresentadora com um ar desafiador.

— Bem, então tu crês que o novo governo será igual, ou até mesmo pior,  que o anterior, estou correta?

Ela entonava sua voz querendo ridicularizar o entrevistado, procurando fazer com que a idéia dele soasse como um grande absurdo para o telespectador. Ele não era tolo ao ponto de não perceber essa atitude calculada dela, mas sabia que pouco podia fazer para vencer a batalha política sutil.

— Exatamente. Simplesmente não há como um movimento golpista ser melhor do que um democraticamente eleito. Veja bem...

Iasmim odiava esse programa. A apresentadora lembrava-a da falecida filha, que falava em tons tão arrogante quanto. Previsivelmente mudou para o canal da Rede Outorga, a que ela julgava ser melhor. Para sorte dela, ela apenas perdeu a sinopse, o início do programa.

— Boa Noite.

O âncora não conseguia esconder seu abalo e nervosismo. Sua fala era trêmula.

— Hoje a pátria foi assustada, pela volta das 7,5, com sons de tiros e tanques pelas ruas de suas principais cidades. Ainda não há informações oficiais, porém, já é evidente que as Forças Armadas tomaram todos os prédios governamentais. Nossa repórter, Júlia Nogueira, está nas dependências do Palácio Presidencial a espera de maiores informações. Boa noite Júlia.

Júlia Nogueira era a repórter oficial para eventos perigosos e polêmicos — o primeiro degrau na carreira jornalística dentro da Outorga.

— Boa Noite Felipe. Aqui, da frente do Palácio Presidencial, não pode-se ver nada. Porém, desde o final da tarde não pode-se observar um movimento sequer. Os soldados também negaram-se a dar qualquer informação. Porém, a qualquer momento pode-se haver a confirmação se isso trata-se de um golpe ou coisa parecida. Júlia Nogueira do Palácio Presidencial.

— Malditos militares.

Iasmim odiava os militares desde a morte de seu marido. Supostamente ele foi morto por alguns tenentes que discordavam das atividades — ecológicas — dele. O processo público que se moveu contra esses militares foi logo arquivo por falta de provas, a custas da honra da família e da sanidade de Iasmim. O rosto dela se avermelhava enquanto a bandeira nacional ardia em sua mente fértil de idéias absurdas. Sua mente agora confundia o presente com o passado: será que os militares ainda estão atrás do seu marido, que na verdade não morreu, que nem o personagem da última novela da Outorga? Talvez, talvez, e se for...

— Filho da puta desgraçado, me abandonou assim para aquele partido de merreca.

A cara de Iasmim se avermelhava de raiva mais uma vez, enquanto ela imaginava o seu supostamente falecido marido fumando um charuto nos corredores do esplêndido Palácio Presidencial. O seu maior temor, contudo, era de ter sido trocada por alguma secretária particular do presidente.

— Temos maiores informações sobre o movimento de tropas de hoje. Segundo o porta-voz da Casa Militar, as Forças Armadas tomaram a iniciativa de intervir nos poderes Legislativo e Executivo, por entender que a constituição estava sendo violada em sua integridade. O mesmo porta-voz também esclarece que os militares não têm intenção de permanecer no poder, relegando-o aos civis o mais rápido possível. Veja o comunicado em sua íntegra na Outorga.

O apresentador agora apresentava maior serenidade — o anúncio o acalmara.

— Senhores e senhoras da nação. A Casa Militar hoje tomou a iniciativa, que consta na constituição, de intervir nos poderes Legislativo e Executivo, por entender que estes estão violando a constituição em sua integridade. Boatos de que há interesse da Casa Militar em perpetuar-se no poder, na forma de uma “Ditadura” Militar, não passam de boatos infundados. Logo que os criminosos constitucionais forem identificados, presos e julgados, o poder será devolvido a sociedade civil e a supremacia constitucional restaurada. Tenham uma boa noite.

Iasmim agora estava eufórica. A justiça estava sendo feita e ela estava vivendo esse momento que seria relembrado por gerações. Uma Revolução. Quem sabe ela poderia saber o verdadeiro fado de seu marido? Ela sorria largamente com esses pensamentos, exceto quando se lembrava que o homem do comunicado estava fardado.

— Malditos, malditos... estão mentido!

Estariam mesmo? Talvez nem tanto. Talvez ela estivesse sendo severa demais com os militares, talvez eles realmente estivessem bem intencionados. Mas apenas o tempo saberia dizer, pois nem os militares sequer sabiam quais eram as suas reais intenções. A confusão que estava instalada na mente de Iasmim não restringia a sua cabeça branca, inundava toda sua nação — perplexa por um golpe inesperado. O que todos realmente queriam saber era quem seria indicado para a presidência e onde estava o titular.