A Demissão do Doutor

— Senhor?

O faxineiro estressava-se: tinha que limpar o chão mais uma vez, pois aquele sujeito tinha sido o décimo a pisar no recém lustrado piso de mármore.

— Senhor?

— O quê é?

O sujeito era sisudo: usava palito e gravata. Achava-se todo poderoso, no direito de pisar onde quisesse. O fato de seu sapato denunciar o seu desleixo vergonhoso, ao estar mergulhado numa fétida bosta canina, não o coagia. O seu doutorado em além-mar era a justificativa para sua auto-estima e falta de educação imensurável, que protegia o seu nariz do fedor que emanava de seus pés.

— O senhor está sujando o chão que acabei de lustrar. Veja só!

O faxineiro então apontou para o rastro de merda que o sujeito traçara. A umidade denunciava a idade recente do cocô, que tornava qualquer defesa de inocência por parte do sujeito insustentável.

— É, é? Pois, que eu saiba te cabe o dever de limpar e lustrar os chãos daqui, não? Não é para isso que és pago?!

Pronunciara todas essas palavras com um tom de deboche escroto, que nem os mais calmos monges budistas tolerariam.

— Estás esperando o que? Que poupe-te de teu trabalho, é?

— Rapaz, primeiramente, sou pago sim para limpar esses chãos. Mas não sou pago para limpar as merdas alheias, como seria esse caso... isso não consta no meu contrato. Estás demitido, sabes disso né?

A raiva e a confusão se misturavam desordenadamente na mente do sujeito. Não fazia-lhe sentido ser demitido por um mero faxineiro, que apenas deveria ter curvado diante de seu diploma estrangeiro.

— Do que está falando? Demitido? Quem te deu o direito de me demitir, faxineiro?

— Leia o teu contrato, “doutô”.

O sujeito então gelou-se. Nunca mais veria esse faxineiro insolente, com certeza, pois logo em seguida foi demitido, conforme ditava o contrato. Uma demissão por causa bem justa.