Violência no Almoço

O senhor cidadão encabeçava a mesa, mas não ditava as ordens: a senhora cidadã era quem as fazia. Ela ordenou a senhora empregada doméstica que fizesse um almoço-padrão: arroz branco, feijão preto com linguiça e outras carnes entre ele, uma salada qualquer e, a parte principal, o bife. A senhorita cidadã, filha do senhor cidadão e da senhora cidadã, marcou presença na mesa com seu garfo e sua faca.

O almoço chegou a mesa e os cidadãos puseram-se a comer.

A senhora cidadã, querendo entreter-se e informar-se enquanto comia, ligou a televisão.

Cardápio quente hoje, sangue, morte na periferia, assalto no centro, corpos carbonizados, estupro de menor, marido esquartejado e frito, mulher esfaqueada por dois reais, tráfico de drogas, corrupção na polícia, desgraça! Socorro, meu Deus, não quero morrer! A televisão gritava em desespero. Se tivesse pés sairia correndo.

O senhor cidadão, indignado, vomitou reclamações. Isso é horário para ficar mostrando essas coisas na televisão? Absurdo, um verdadeiro absurdo, tira a fome.

Tira mesmo.

Morte, morte, falar de morte nesse horário?

Olhou para o prato, parou. Acordou, vomitou.

Morte, dor, sofrimento, escravidão, esquartejamento, bicadas, violência.

O que foi amor? O prato, o prato está na televisão ou a televisão está no prato, não sei bem. Perdeu a fome? Totalmente.

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"Cardápio quente hoje,

"Cardápio quente hoje, sangue, morte na periferia, assalto no centro, corpos carbonizados, estupro de menor, marido esquartejado e frito, mulher esfaqueada por dois reais, tráfico de drogas, corrupção na polícia, desgraça!"

Felizmente a Globo é tão boazinha que ela sempre coloca as notícias de entreterimento e esportes no final, para podermos dormir tranquilos.