A Primeira Sessão Revolucionária Militar

— Senhores e senhoras oficiais, trago-lhes boas notícias de todas as zonas militares do país, exceto dos Territórios Insulares. O sucesso da Operação Soldalto é incontestável. Obtivemos controle sobre cerca de 91% do território nacional e 89% da população, sendo que o restante corresponde às ilhas. A capital é nossa, o poder é nosso!

O relatório do presidente da primeira Sessão do Comitê Revolucionário Militar, General Malheiros, fez a euforia alegremente disciplinada espalhar-se pelo salão principal do Palácio Presidencial. Lá estavam os principais generais, brigadeiros e almirantes; aliados com um único real objetivo: aumentar os seus próprios soldos em um nome nobre, que ainda não encontraram.

Contudo, Malheiros não havia planejado o depois da operação — sua formação tradicional restringia suas habilidades e conhecimentos políticos. Indo contra sua vontade, teve que expor aos oficiais a falta de planejamento pós-golpe, mostrando sua incompetência.

— Senhores e senhoras, tenho que, contudo, expor-vos uma verdade: não sei bem o que mais faremos cá. As opções são inúmeras, mas um plano escolhido não há. Agora abro a sessão para dirigir, a mesa, sugestões.

O oficialato estremeceu-se: tinham o poder, mas não sabiam o que fazer com ele. E como o general mais poderoso da nação não pensou nessa situação? Quanta imprudência, um verdadeiro incompetente e fanfarrão. Porém, não havia espaço para condenar abertamente o líder, apenas para obedecer a sua ordem de elaborar e revelar sugestões. A grande maioria dos oficiais não tinham sequer uma formação política básica (aqueles que o tinha fingiam não o ter para aliviar suas mentes da árdua tarefa de pensar racionalmente), porém os comandantes das armas e uma pequena quantidade de oficiais a tinha. A primeira a pronunciar-se foi a sagaz e acadêmica, porém louca, almirante Almeida.

— Senhor, vejamos bem a situação que o senhor nos colocou: estamos no poder mas não sabemos o que fazer com ele, — ria-se diante da constrangida audiência — agora precisamos solucionar no mínimo dois problemas: justificar nossa “intervenção” no governo e traçar o fado para nosso papel aqui. Através de meus estudos jurídicos, dos quais todos vos sabem, concluo que há embasamento constitucional para nossa intervenção. Bastamos argumentar que “algum dos poderes ameaçaram os valores democráticos e republicanos da nação”. Digo, podemos encontrar alguma prova que o infame presidente não passava de um monarquista e pá: resolvemos o problema. E então, o que me dizem?

A almirante Almeida não parava de rir-se. A loucura risonha da comandante naval não assustava mais ninguém, pois já era de conhecimento público. Sua fala foi respeitada diante dos doutorados que recolhera em todo mundo. O único que resolveu intervir foi o antigo chefe da Segurança Pessoal presidencial, o homem que tinha maior contato com o presidente.

— Monarquista o presidente não era, mas corrupto sem dúvidas. Basta irmos para a mansão dele na ilha que veremos muito bem do que estou falando.

— Então, temos nosso pretexto senhores e senhoras oficiais. Agora basta formularmos um plano para sair daqui e garantir nosso aumento perpétuo. Algum de vocês têm uma ideia?

Um oficial de azul e branco se moveu pela multidão sisuda. Se tratava do brigadeiro Eloí, conhecido por seus infames planos megalomaníaco que envolviam tomar o porta-aviões da marinha, tornando a aeronáutica a mais abrangente e poderosa força armada. Porém, Almeida estragou os planos de Eloí, criando um clima tenso entre os dois oficiais e as duas forças armadas.

— Senhor, temos três ou quatro possibilidades. A primeira seria bem simples: nos perpetuar no poder. Assim asseguraríamos nosso aumento, nosso poder e nossa vontade até quando sairmos do trono presidencial. Nossos colegas de armas do estrangeiro podem nos ajudar nessa operação, por ser já uma especialidade deles: governar. A segunda alternativa é meio arriscada, pois vai comprometer nosso pretexto. Damos o poder ao Partido Restaurador, que obviamente irá restaurar a monarquia, e então nós sustentamos o novo regime. Isso, como a almirante já afirmou, seria inconstitucional. A terceira possibilidade seria dar o poder ao Partido Ecologista, que não passa de uma facção sem real ideologia do Partido Verde Democrático, que seria nosso marionete na questão do soldo. Para mim, a primeira opção seria sem dúvidas a melhor.

Os oficiais se estarreceram.

— Senhor brigadeiro Eloí, não podemos admitir que nossa imagem de defensores da democracia, da liberdade e da república seja manchada por tão pouco! Somos, até hoje, os únicos no continente a manter-nos fiéis aos princípios que tangem nossa sociedade. Só a menção dessas suas palavras são inadmissíveis!

Era o General José Carlos Guerra, cuja fala tinha sido finalizada por um barulho desconexo de palmas, xingamentos, palavras de ordem e vaias. Não se sabia quem estava louvando quem, quem estava vaiando quem. Malheiros logo percebeu que estava perdendo o controle sobre o oficialato. Sacou sua arma e disparou três tiros contra o teto, só no terceiro as pessoas acalmaram-se e quietaram-se. Apenas os risos de Almeida continuavam, descontroladamente. O gesso do teto caiu em cima do paletó de Eloí, o irritando profundamente. Só depois de alguns suspiros Malheiros discursou.

— Oficiais, Guerra tem razão: não podemos assumir o poder do país puramente, de forma tão despótica, seria contra nossos ideais. E Eloí, a terceira opção é a mais racional, sem duvidas. Algum outro oficial-de-armas tem algo a acrescentar, alguma sugestão ou objeção à decisão da mesa?

Malheiros deu a palavra para quem o quisesse, mas não percebeu que ainda apontava a sua pistola para a multidão fardada, muda pela ameaça e falta de criatividade momentânea.

— Então, que assim seja! Próximo mês, começamos a fazer a transição para a verdadeira democracia, com uma nova constituição e com o Partido Ecologista, eleito, no poder. Viva a República!

— Viva a República.

Os gritos de “Viva a República” foram tímidos, porém onipresentes. O destino da nação estava nas mãos do Partido Ecologista de agora em diante, pois os militares não queriam ser vistos como ditadores nem admitiam a verdadeira democracia eleitoral. Fora isso, não havia marionete melhor por perto.