O Curandeiro e a Xamã

Baseado em um diálogo virtual com a estudante de Biologia Rafaela Marocci.

O curandeiro andava pelas sombrias florestas federais da capital da alegria com cautela que qualquer cidadão comum teria A cada esquila, a cada arbusto poderia haver um meliante pronto para dar o bote em cima de sua tábulas de Direito Romano ou até mesmo das dúzias de volumes de seus livros doutrinários. Ao ousar descer da colina e correr pelos vales, ele sabia que caso fosse vitimado pela justiça dos bandidos, seria motivo de juspiadas por todos os que bebiam na beira do rio e fumavam na montanha. A punição era eficaz e certa, mas a gratificação em conhecer além dos horizontes que a colina lhe proporcionavam lhe tentavam.

Em uma das esquinas, o curandeiro que já se achava juiz, encontrou uma xamã que cuidadosamente observava uma pasta feita de besouros triturados, através de microscópios descartados que encontrou no matagal. Quando o curandeiro chegou perto da mulher de jaleco branco, a advertiu com tom profético:

─ Olê-olê-olá! O Grande Círculo de Fogo esplandece no céu, e seu calor arde em minha alma. Sabe o quê isso significa, minha cara?

─ Que o sol está a pico?

─ Não só isso... significa que é dia, e do dia existe vida! E assim, se dá para viver, como dizes no suas límpidas roupas: “Não dá para viver sem vida”. Mas seria essa vida digna de ser vivida, xamanzinha?

─ Disso não sei. Mas sei que estou vivendo.

─ Que Plutão lhe abençoe com tanta nanica força planetária... ops, ele não mais é planeta... pois, pois, que assim mesmo ele lhe abençoe, abençoe sua vida e seu viver!

A xamã riu diante do gaguejo do curandeiro, mas lhe foi graciosa:

─ Amém! Você também vive. Nós vivemos. Só vivemos. Sós não, às vezes, sempre vivemos só. Somente viver.

─ E xamanzinha... e quem sobrevive? Tem vida mas não vive? Oh, me conte as verdades que as células tanto te dizem!

─ Quem sobrevive nada mais é que um sobrevivente, fraco demais para se deixar afundar com os outros. Nele há vida, mas isso não quer dizer que vive. Elas me disseram que nada somos, além de um monte de pequenas coisas que pensam ser algo juntas. Quanta ilusão! Quanta mentira! Quanta beleza...

─ Ah, essa estética de pedaços me é tão desprezível quanto as estrelas que não exergo. Não enxergo pois a constelações de luzes falsas não me permitem ver o céu. Mas, essa fraqueza que dizes, não seria na verdade uma força? Uma virtude?

─ Se é nisso que você quer acreditar, basta. Tão simples, tão falso, tão bom.

─ Tão falso? Como ousas questionar minha doutrina, minha dogmática sobre os sobreviventes?

─ Com a ousadia de quem não conhece a verdade, nem jura ter a conhecido, tão ilusória, tão mentirosa e bela.

─ Pois a verdade eu carrego comigo, como Lúcio, Júlio e outros tantos, que em latim falavam, nesses tantos e velhos livros.

O curandeiro então jogou em cima dos microscópios o peso que carregava nas costas.

─ Se crês que a velhice por si só trás a verdade, não poderia estar mais enganado.

─ Pois, xamanzinha, é isso que as células lhe contam?

─ Não, é isso que o viver me diz.

─ Então vives erradamente!

─ Que assim seja, julgue você que tem tantos livros anciãos nas costas. Contanto que nada me faça, estarei sempre vivendo.

─ Disso os volumes me dirão.

─ Se forem justos, é isso que aí deve estar escrito! “Não faça nada.”

─ “E à xamã, caso portando instrumentos de valor inestimável, se puser contra as verdades já relevadas, haverá apenas uma censura brusca e nada mais.” Édipo de Napoli.

─ Pois, então a minha pena já foi executada, não?

─ Sim, a foi.

─ Basta, vá embora. Que Marte coma seus livros, faça deles uma pasta mais rica para minhas lentes descartadas do que esses besouros o eram. O olimpo jamais o perdoará, tal como aquele homem que na casinha branca decide em parte nosso fado!

─ Que assim seja e revogue-se as disposições em contrário.

O curandeiro então partiu, satisfeito por ter feito justiça em nome das verdades mais antigas, mas com o eterno medo de um ataque delinquente. Mas a xamã ignorou o encontro infame, e continuou estudando suas soluções e as células pequeninhas que segredos a contavam.