O cidadão corre quase tropeçando,
em busca de salvar sua vida que
está prestes a abandoná-lo...
e com um estrondo de fuzil ele
tropeça para nunca mais levantar:
sua vida lhe deu o adeus final.
Agora o que está no chão não é
mais um cidadão e sim apenas
um defunto como tantos outros,
sem direitos a serem respeitados
e sem deveres a serem cumpridos.
Meus suspiros não são mais
para mim, para outrem nem
para algo ou sequer alguém.
Meus suspiros são para o nada
que agora domina todo espaço
dentro da forma a qual sou eu.
E a cada um desses suspiros
me torno cada vez mais vazio
do próprio nada que me recheia.
(Dedicado humildemente ao autor de Leviatã, Thomas Hobbes).
I
Milicianos da vida organizam-se
em esquadras de diversos tamanhos
e propósitos distintos, em nome da
pátria, raça, gênero ou até mesmo
de alguma ideia naturalmente vaga.
No campo de batalha essas esquadras,
algumas até de mãos-dadas, se trucidam
usando como arma a palavra ou balas,
sabres e estiletes para pôr fim a vida de
quem parece ser uma ameaça mínima.
Mas os que já andaram de mãos-dadas,
quando o inimigo comum desaparecer,
passam a arrancar a carne de seus antigos
quase-irmãos, os ditos aliados de ontem,
sem misericórdia mas sim com rancor.
II
Quando não houver quem mais subjugar,
o grupo que era pedra vira pó de areia,
cada grão quer tomar outro para si,
cada grão quer tonar-se rei do deserto
que já foi sua família unida e leal.
As alianças entre os grãos são voláteis,
nascem e morrem na velocidade da luz,
pois elas se desfazem quando o objetivo
que a ergueu claramente se dissolve no
meio da praia sem mar que é palco bélico.
O dia-a-dia tornou-se o campo de batalha,
para aqueles guerreiros cuja vida já era
a guerra eterna de todos contra todos.
Nele não há bondade nem doçura humana,
apenas malícia e traição sistemática.
III
Quando finalmente chegou o dia em que
a humanidade achou o mais forte dentre
todos os seus membros beligerantes,
este apenas tinha como labor assegurar
a derrota de todo aquele que testasse
a sanidade de sua mente acorrentada
por um liga feita de pura insanidade.
Cada pensamento virou uma batalha,
na nova guerra certamente quase que
interminável.
IV
Mas quando o grande vencedor vence
a guerra contra si próprio, ele não pode
dar-se como vencido em sua finalidade
na vida que seguiu até então: luta contra
seu próprio corpo.
Comete o suicídio, para superar a todos
em sua existência e não-existência.
Em um grande planalto aberto pelo gado,
havia um grupo de gente de todo mundo.
Eles caminhavam em busca de algum lugar
para iniciar uma nova vida e uma nova vila.
Dentre essa gente havia um um homem que
inocentemente pisou em um córrego, sem dó.
Apareceu, do meio da multidão móvel, uma
mulher segurando um punhal muito bem afiado.
Ela acreditava que todos aqueles que pisavam
nos córregos mereciam a morte e enterrou a arma
no pescoço do cidadão irresponsável.
Outra mulher, atordoada, a censurou e foi até
o corpo do homem ferido, que já havia morrido.
Ao ouvir as palavras de discordância, outro
reclamou pelo respeito das tradições da mulher.
“Tens que aprender a respeitar os diferentes valores
não importando o quão eles possam ser polêmicos!”
A vida do homem valia menos do que a crença
de uma cidadã armada mentalmente e fisicamente,
e isso foi respeitado com zelo.
No dia dos pares binários,
há flores, doces e presentes
que ficam cada vez mais caros.
Os casais televisivos sorriem,
mais do que qualquer um que
já conheci em minha realidade,
são perfeitos e harmoniosos.
Pois na televisão, como na
plateia da sociedade, eles não
têm nem ciúmes nem inveja.
Mas no mundo real material,
a áurea desse romantismo me
tornou tão tênue que virou
um fantasma imperceptível.
Não acredito mais na tevê,
nem nos casais felizes de
meu meio populado.
Garota cor de bronze,
vi tuas lágrimas d'água
transforem-se em Q'boa,
e as vi levarem a cor
de tuas roupas marcantes
e do mundo todo.
(Mas tua pele não
perdera a cor junto
com o nosso mundo).
Diante do dilema impopular:
o do copo que possui um conteúdo
cujo volume é metade a do copo,
pergunta-se a quem calhar se o
copo está meio cheio ou meio vazio.
O pessimista só vê a ausência de coisa.
O otimista só vê a coisa que lá há.
E o realista não sabe responder precisamente.
Digo "sim" quando é para o dizer,
com meu braço a moda militar.
Digo "não" quando me convier,
caso haja autorização concedida.
Digo "talvez" quando a etiqueta
tão decentemente respeitada
(que honra os bons costumes
centenários que nossa nação
herdara dos tempos gloriosos
em que homens e mulheres
eram estuprados na mão de
homens de sotaque engraçado
com chicote na mão e cuspe
no chão molhado de sangue)
diz que não posso abrir a boca
sem sofrer as coações ditadas.
Minhas palavras são medidas
e todas elas seguem a cegas as
normas de etiqueta verbalizada
da Nação.
A Central Única da Criatividade
deflagrou uma greve geral
sem sequer discutir.
O Sindicato das Letras
recusa-se colocar um A
no papel feito de bits.
O Sindicato das Fotos
não quer ver uma câmera
nem filmadora sequer.
O Sindicato Gráfico
esqueceu como usar o Gimp,
acho que deixou de existir.
O sindicato patronal foi traído.
Da batalha onde todos
somos imortais,
de onde as baixas
não passam de deserções,
tirei minhas forças.
Pois nessa guerra
apenas os que se nutrem
das batalhas numerosas
um dia verão a vitória,
ou antes morrerão.
Mas morrerão sabendo
que suas ações não serão
em vão nem vãs
e que a vitória estará próxima
pois sua parte já foi feita,
e o exemplo será seguido.