Poesia

Das chuvas ao norte

Salvador virará mar!
Ou um grande lamaçal.
Mas ninguém que não
é de cá ou mora aqui irá
dar-se conta, pois não interessa
o que acontece acima do sudeste.

O Maranhão e Piauí
já se entregaram ao mar e aos rios.
Mas fora dos cocais,
pouco sequer se chiou,
pois lá fica ao norte
longe de nosso grandioso sul.

As águas estão lavando o norte
como já lavaram o sul,
mas ninguém irá chorar agora
pelos mortos e desabrigados
que vivem ao lado do equador.
Nem alguns que cá moram.

Da Gripe Suína

(Coff, coff)
A gripe suína chegou
para acabar com a vida
monótona do cidadão.

(Coff, coff)
É hora de pegar
em máscaras,
desenvolver vacinas e
levar quem estiver mais
quente ao ostracismo!

(Coff, coff)
Pois remediar é
melhor do que prevenir!

(Coff, coff)
Esqueçamos a causa
de tanta desgraça.
Abandonamos a obviedade,
os porcos numerosos
sob nossos tetos e mãos
tão caridosas!

Mãos que castram sem anestesia.
Tetos que assombram a vida deles,
milhões, senão bilhões!

E vivemos,
aqueles que sobreviverão,
tossindo sem precisar.

Andando em direção à luz

Diga àqueles
que ainda me esperam,
lá do outro lado,

que não mais voltarei,
pois já andei demais
nesse túnel ideológico.

Não tenho lanterna
e meu único guia
é a luz no fim do túnel.

O momento é agora

O momento é agora,
sempre foi agora.

Momento para refletir
sobre a vida e
sobre o passado
para enxergar melhor
o futuro sempre presente.

Momento de agir,
tomar uma decisão
e a por em prática.

Momento de abrir
a boca e falar,
desamarrar os dedos.
Ouvir e fazer-se
ser ouvido.

Momento de levantar-se
da poltrona do conforto
para marchar nas ruas
em meio ao confronto.

Enfim,
é momento de se viver.

Belicismo Mental

Senhores,
os senhores não têm
fuzis em seus punhos,
tampouco balas em suas mãos.

Mas elas serão desnecessárias
para o combate que terão.

Pois suas armas serão suas bocas,
cheias de dentes e de sons.

Suas munições serão fabricadas em série,
por suas mentes industriais.

Nossa guerra não é terrena,
é ideológica.
As batalhas serão nas mentes
e é nelas onde haverá
o embate final.

Da Sexta-feira Santa

Santíssima Sexta-feira,
dia de matança.

Dia de orar pelo senhor,
ao lado do ser senciente
inocente que deve sentir
em sua pele a dor do senhor.

Dia de dizer amém para
a louvação da morte
em nome de Cristo e
do hábito insano.

Cadáveres em decomposição
no prato santificado.

Suplício

O árduo caminho até
o cadafalso me é familiar,
pois ele sou eu.

O povo me atormentando,
gritando em meus ouvidos,
atirando tomates podres, são eu.

Os guardas me defendendo,
enquanto dão cotoveladas
muito bem afiadas, são eu.

O carrasco em sua fantasia
horrenda e suja de sangue,
é ninguém mais além de mim.

Mas a enxada enferrujada,
essa não sou eu, nem poderia.
É o amor e a paixão.

Fall in Love

Fall in love.

Os anglófonos
sabem muito bem
o que é a paixão,
e até mesmo o
amor:

um posso fundo,
onde os desavisados
caem sem hesitação.

O Sacerdote

O homem de
toga branca
falava e falava
no palanque roxo.

Falava não,
gritava:
Morte, sangue...
é isso que temos

que arrancar
de todos os cantos
de nosso coração
e de nossa alma.

Então o homem
sacou sua arma
de fogo ao lado
do livro sagrado.

Mirou no livro e
atirou sem dó
nem piedade
com um sorriso

cínico em sua
face engordurada
e farta de suor,
daquele frio.

O livro sangrou,
enquanto os fieis
gritavam sem parar:
Hallelujah!

Lá no fundo do templo,
o ateu abriu os olhos
diante da patética ironia
do rebanho fiel.

(Risos)

(Risos)

No grande circo da
vida de palhaços,
o som da marcha cômica
nos obriga a rir a beça,
mas nos irrita profundamente.

(Risos)

Pois não samos contratados
para fazerem outros rirem
(apesar de só fazermos isso),
mas se não isso fazermos
não seremos pagos e
choraremos até a morte.

(Risos)

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