Poesia

À Futura Médica

Suas olheiras
Denunciam o esforço
Impiedoso, imensurável
Por um sonho muito cotado

Salvar do sofrimento terreno
Ou do próprio fim da vida alheia
Requer sacrifícios que vão além
De uma noite mal dormida

Sabes tanto disso
Que o sucesso virá, sim
Por merecimento devido
No tempo certeiro.

Tua graça nomeada
Espelha em tua carne
Em teus cabelos suntuosos
Compridos e bem cuidados

Queria ser o primeiro paciente
Dessa incipiente carreira
Forjada no subsolo
Dos escravos vestibulandos

Ao menos, se a chance fosse dada
A oportunidade e algum tempo
Em meio aos livros didáticos
Que imperam sua agenda

S

Adiamento

No crepúsculo
Do dia da libertação

Debaixo da terra
Nos subsolos risonhos

Só há sono
Cansaço desmedido

Que saco!
Não agüento mais

Ninguém mais agüenta
Nem mais uma semana sequer

Porém, ainda dias e dias
Fazem distante

A redenção ou condenação
De cada escravo

Pela caneta própria

Fotografia Imaginária

Vejo-te
Vejo-me
Juntos, lado-a-lado
Em uma moldura

Parece pintura
Uma fotografia
Colorida e meio pálida
Sofrida pelo tempo

Sempre imagino-nos
Da mesma forma
No mesmo lugar
Simples e ensolarado

Estamos felizes
Jovens imperfeitos
Com vestimentas
Típicos de banho

Teu sorriso
Me impressiona
Em minha falsa
Seriedade

Um lindo casal
Assim diriam
E dizem aos cochichos
Em meus ouvidos concordantes

Silenciosos

Perguntas e Respostas

As vezes alguém me interroga
Por que escreves? Por que dá o trabalho de publicar?

E eu mesmo me pergunto também
Pois isso não passa de mais um hobby

Que um dia, talvez, terá um fado típico
O ostracismo

Doutor

Eu quero ser
Um doutor, formado

Na Alemanha

Rico dos ricos
Sabichão

Ó sim, eu quero
Quero dinheiro, do mundo todo!

Só pra mim
Pra mim

Doutor

Sim, eu quero só
Para colocar debaixo da cama

Apodrecendo
Minha riqueza, inútil

Sem fim
Sem fim

Dormir na cama
De ouro mole

Num sonho eterno
De trabalho lucrativo

Sem vícios custosos
Sem mulheres, sem filhos

Sem amigos, interesseiros
Sem empregados dispendiosos

Com tudo
Só para mim

Só para mim

Plástico acima do Nada

Quanta gente
Quantas caras...

Meus colegas
Amigos

Enfileirados
De lado a lado

Alguns em sono profundo
Outro atentos

À sua imaginação
Ou à luz

Que tenta iluminar
Seus crânios assombrados

Seus rostos, contudo
São plastificados

Por máscaras
Opacas

Que deformam
O interior duvidoso

Tão diversas
Múltiplas

Que nem eles
Seriam capazes

De saber o que há
Debaixo delas

Poderia ser
O demônio

Judaico
Cristão

Ou o anjo
Socialista utópico

Ou simples-
Mente

Qualquer coisa
Imaginavelmente possível

Ou não

Então não se espera
Ser igual

As suas essências
Perdidas

Debaixo das camadas
Que encobr

Querer e o Muro

Queria tanto
Segurar-te

Acolher-te
Quando mais precisar

Enxugar suas lágrimas
E abraçar-te

Queria tanto
Acariciar-te

Estar contigo
Nos melhores momentos

Fazê-los nossos
E grandiosos

Na dor e
Na alegria

Só permita-me
Quebrar o muro

Que te envolta

O Último Vôo da Drosófila

Minha mente
Ela sim, me confunde

Não sei mais o que é real,
O que é pensamento

Ilusão, desilusão
Tudo parece num caldeirão!

Em uma sopa fedida
Derramada em meu crânio

Minha cabeça é um prato
Que está rachando

Dói
Só de pensar

Que me enganei
Confundi sentimentos

Achei que a realidade
Era minha imaginação!

E desprezei a verdade
Como um santo inquisidor

Me perdoa
Me perdoa, eu mesmo!

Me perdoa, deixe-me viver
Comigo mesmo

Sem enganação
Sem deboches

Ilusão e desilusão
Realidades absurdas.

- Não, não te perdôo

E a drosófila
Tirou sua própria vida

Com um vôo
Derradeiro e certeiro

Será que Acordei?

Será, será?
Que a realidade

Não passa da maior das ilusões
De minha mente traiçoeira

Ilusão mais conveniente
Que justificava

Minha miséria
Minha impotência

A drosófila atordoada
Desamorosa e sem esperança

Agora não sei
Se posso confiar

Em minha mente,
Sequer...

Drosófila Iludida

Pensava que minha desgraça
Finalmente estava perto de um fim

Mas vejo que não passa de uma bela
Ilusão

Tão passageira quanto a vida
De uma mísera drosófila

Esmagada sem dó
Pelas mãos da realidade

Rude e bruta
Como só ela poderia um dia ser

Então eu fico no chão
Atordoado, agoniando

Tendo visões futuristas
Massacrantes e massacrados

Está a parte que me cabe
Nessa curta vida desiludida.

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