Suas olheiras
Denunciam o esforço
Impiedoso, imensurável
Por um sonho muito cotado
Salvar do sofrimento terreno
Ou do próprio fim da vida alheia
Requer sacrifícios que vão além
De uma noite mal dormida
Sabes tanto disso
Que o sucesso virá, sim
Por merecimento devido
No tempo certeiro.
Tua graça nomeada
Espelha em tua carne
Em teus cabelos suntuosos
Compridos e bem cuidados
Queria ser o primeiro paciente
Dessa incipiente carreira
Forjada no subsolo
Dos escravos vestibulandos
Ao menos, se a chance fosse dada
A oportunidade e algum tempo
Em meio aos livros didáticos
Que imperam sua agenda
S
No crepúsculo
Do dia da libertação
Debaixo da terra
Nos subsolos risonhos
Só há sono
Cansaço desmedido
Que saco!
Não agüento mais
Ninguém mais agüenta
Nem mais uma semana sequer
Porém, ainda dias e dias
Fazem distante
A redenção ou condenação
De cada escravo
Pela caneta própria
Vejo-te
Vejo-me
Juntos, lado-a-lado
Em uma moldura
Parece pintura
Uma fotografia
Colorida e meio pálida
Sofrida pelo tempo
Sempre imagino-nos
Da mesma forma
No mesmo lugar
Simples e ensolarado
Estamos felizes
Jovens imperfeitos
Com vestimentas
Típicos de banho
Teu sorriso
Me impressiona
Em minha falsa
Seriedade
Um lindo casal
Assim diriam
E dizem aos cochichos
Em meus ouvidos concordantes
Silenciosos
As vezes alguém me interroga
Por que escreves? Por que dá o trabalho de publicar?
E eu mesmo me pergunto também
Pois isso não passa de mais um hobby
Que um dia, talvez, terá um fado típico
O ostracismo
Eu quero ser
Um doutor, formado
Na Alemanha
Rico dos ricos
Sabichão
Ó sim, eu quero
Quero dinheiro, do mundo todo!
Só pra mim
Pra mim
Doutor
Sim, eu quero só
Para colocar debaixo da cama
Apodrecendo
Minha riqueza, inútil
Sem fim
Sem fim
Dormir na cama
De ouro mole
Num sonho eterno
De trabalho lucrativo
Sem vícios custosos
Sem mulheres, sem filhos
Sem amigos, interesseiros
Sem empregados dispendiosos
Com tudo
Só para mim
Só para mim
Quanta gente
Quantas caras...
Meus colegas
Amigos
Enfileirados
De lado a lado
Alguns em sono profundo
Outro atentos
À sua imaginação
Ou à luz
Que tenta iluminar
Seus crânios assombrados
Seus rostos, contudo
São plastificados
Por máscaras
Opacas
Que deformam
O interior duvidoso
Tão diversas
Múltiplas
Que nem eles
Seriam capazes
De saber o que há
Debaixo delas
Poderia ser
O demônio
Judaico
Cristão
Ou o anjo
Socialista utópico
Ou simples-
Mente
Qualquer coisa
Imaginavelmente possível
Ou não
Então não se espera
Ser igual
As suas essências
Perdidas
Debaixo das camadas
Que encobr
Queria tanto
Segurar-te
Acolher-te
Quando mais precisar
Enxugar suas lágrimas
E abraçar-te
Queria tanto
Acariciar-te
Estar contigo
Nos melhores momentos
Fazê-los nossos
E grandiosos
Na dor e
Na alegria
Só permita-me
Quebrar o muro
Que te envolta
Minha mente
Ela sim, me confunde
Não sei mais o que é real,
O que é pensamento
Ilusão, desilusão
Tudo parece num caldeirão!
Em uma sopa fedida
Derramada em meu crânio
Minha cabeça é um prato
Que está rachando
Dói
Só de pensar
Que me enganei
Confundi sentimentos
Achei que a realidade
Era minha imaginação!
E desprezei a verdade
Como um santo inquisidor
Me perdoa
Me perdoa, eu mesmo!
Me perdoa, deixe-me viver
Comigo mesmo
Sem enganação
Sem deboches
Ilusão e desilusão
Realidades absurdas.
- Não, não te perdôo
E a drosófila
Tirou sua própria vida
Com um vôo
Derradeiro e certeiro
Será, será?
Que a realidade
Não passa da maior das ilusões
De minha mente traiçoeira
Ilusão mais conveniente
Que justificava
Minha miséria
Minha impotência
A drosófila atordoada
Desamorosa e sem esperança
Agora não sei
Se posso confiar
Em minha mente,
Sequer...
Pensava que minha desgraça
Finalmente estava perto de um fim
Mas vejo que não passa de uma bela
Ilusão
Tão passageira quanto a vida
De uma mísera drosófila
Esmagada sem dó
Pelas mãos da realidade
Rude e bruta
Como só ela poderia um dia ser
Então eu fico no chão
Atordoado, agoniando
Tendo visões futuristas
Massacrantes e massacrados
Está a parte que me cabe
Nessa curta vida desiludida.