Baseado em um diálogo virtual com a estudante de Biologia Rafaela Marocci.
Em uma das esquinas, o curandeiro que já se achava juiz, encontrou uma xamã que cuidadosamente observava uma pasta feita de besouros triturados, através de microscópios descartados que encontrou no matagal. Quando o curandeiro chegou perto da mulher de jaleco branco, a advertiu com tom profético:
─ Olê-olê-olá! O Grande Círculo de Fogo esplandece no céu, e seu calor arde em minha alma. Sabe o quê isso significa, minha cara?
─ Que o sol está a pico?
─ Não só isso... significa que é dia, e do dia existe vida! E assim, se dá para viver, como dizes no suas límpidas roupas: “Não dá para viver sem vida”. Mas seria essa vida digna de ser vivida, xamanzinha?
─ Disso não sei. Mas sei que estou vivendo.
─ Que Plutão lhe abençoe com tanta nanica força planetária... ops, ele não mais é planeta... pois, pois, que assim mesmo ele lhe abençoe, abençoe sua vida e seu viver!
A xamã riu diante do gaguejo do curandeiro, mas lhe foi graciosa:
─ Amém! Você também vive. Nós vivemos. Só vivemos. Sós não, às vezes, sempre vivemos só. Somente viver.
─ E xamanzinha... e quem sobrevive? Tem vida mas não vive? Oh, me conte as verdades que as células tanto te dizem!
─ Quem sobrevive nada mais é que um sobrevivente, fraco demais para se deixar afundar com os outros. Nele há vida, mas isso não quer dizer que vive. Elas me disseram que nada somos, além de um monte de pequenas coisas que pensam ser algo juntas. Quanta ilusão! Quanta mentira! Quanta beleza...
─ Ah, essa estética de pedaços me é tão desprezível quanto as estrelas que não exergo. Não enxergo pois a constelações de luzes falsas não me permitem ver o céu. Mas, essa fraqueza que dizes, não seria na verdade uma força? Uma virtude?
─ Se é nisso que você quer acreditar, basta. Tão simples, tão falso, tão bom.
─ Tão falso? Como ousas questionar minha doutrina, minha dogmática sobre os sobreviventes?
─ Com a ousadia de quem não conhece a verdade, nem jura ter a conhecido, tão ilusória, tão mentirosa e bela.
─ Pois a verdade eu carrego comigo, como Lúcio, Júlio e outros tantos, que em latim falavam, nesses tantos e velhos livros.
O curandeiro então jogou em cima dos microscópios o peso que carregava nas costas.
─ Se crês que a velhice por si só trás a verdade, não poderia estar mais enganado.
─ Pois, xamanzinha, é isso que as células lhe contam?
─ Não, é isso que o viver me diz.
─ Então vives erradamente!
─ Que assim seja, julgue você que tem tantos livros anciãos nas costas. Contanto que nada me faça, estarei sempre vivendo.
─ Disso os volumes me dirão.
─ Se forem justos, é isso que aí deve estar escrito! “Não faça nada.”
─ “E à xamã, caso portando instrumentos de valor inestimável, se puser contra as verdades já relevadas, haverá apenas uma censura brusca e nada mais.” Édipo de Napoli.
─ Pois, então a minha pena já foi executada, não?
─ Sim, a foi.
─ Basta, vá embora. Que Marte coma seus livros, faça deles uma pasta mais rica para minhas lentes descartadas do que esses besouros o eram. O olimpo jamais o perdoará, tal como aquele homem que na casinha branca decide em parte nosso fado!
─ Que assim seja e revogue-se as disposições em contrário.
O curandeiro então partiu, satisfeito por ter feito justiça em nome das verdades mais antigas, mas com o eterno medo de um ataque delinquente. Mas a xamã ignorou o encontro infame, e continuou estudando suas soluções e as células pequeninhas que segredos a contavam.
Em um dia como qualquer outro, o cliente mais fiel do Gabriel, o tal de Marcos, estava no bar como fazia todos os dias praticamente. Estava em sua décima cerveja do dia e já sentava naquela cadeira fétida de bar-de-esquina faziam praticamente toda a madrugada. O sol começou a ranhar no horizonte soteropolitano, tornado o céu de Salvador vermelho. Mas, para a infelicidade de Marcos, o vermelho fortíssimo que via não poderia ser do céu, era o sangue que escorria por sua testa suja de suor e poeira. Alguém havia, ele pensou, quebrado uma garrafa em sua cabeça. A primeira coisa que lhe veio a cabeça foi vingança, tinha que se vingar de quem o atacara.
Olhou ao seu redor, não viu ninguém suspeito: apenas alguns de seus amigos-de-bar bêbados, ignorando sua existência e dor de cabeça. Ninguém deu a mínima, ninguém na cidade inteira daria (nem sua família), exceto Gabriel que gritou:
─ Marcos?! Quê é isso em sua cabeça, vei?
Notas violetas e vermelhas em chamas vieram no imaginário de Gabriel. Perder Marcos era como perder uma mina de dinheiro, que raramente se encontrava em Salvador com tanta facilidade. Marcos lentamente respondeu honestamente, que não sabia o que havia acontecido. Sua suspeita que foi alguém com uma garrafa era o resultado de longas sessões de filme de piratas e de velho oeste. Então Gabriel o segurou e colocou em uma cadeira, pois Marcos estava caído no chão. Ninguém deu a mínima.
Gabriel correu para o telefone, procurando pelo número de ambulâncias em sua agenda. As poucas que encontrou, não atendiam o telefonema, para o azar de seu fiel cliente. Os gráficos decrescentes causaram grande tormento para Gabriel, porém ele engoliu tudo como se fosse uma dose de vodca. Deixou Marcos de lado e voltou ao trabalho.
Marcos continuou na cadeira durante o restante da manhã, criando uma poça de sangue considerável em volta de sua cadeira. Os pedestres passavam cegamente ao seu redor, surdos dos gemidos que Marcos fazia. Até mesmo uma ambulância passou próximo, mas nada fez. Ignorou-se a existência dele e sua dor.
Quando o sol começou a se por no horizonte soteropolitano, Gabriel e sua cambada retornaram para mais uma noite alcoolizada. Um deles se aproximou para o que deveria ser Marcos e tirou-lhe o pulso. Estava morto e começava a feder um pouco. O sofrimento de Marcos finalmente chegou ao fim junto com sua vida, para seu alívio, apesar de nunca saber quem o matou realmente.
No dia seguinte foi o enterro. Compareceu a família de Marcos (sua mulher e dois filhos), Gabriel e mais ninguém. Não houve choro, declamações, nem nada de importante. Apenas se cumpriu o ritual social que era exigido. Todos foram embora, como se nada de importante tivesse acontecido.
─ O povo não faz nada Alberto, nada!
O senhor de camisa de botão falava tentando manter um certo ar de seriedade.
─ Não faz nada mesmo Ricardo, nadinha.
─ Sabe o quê o povo tinha que fazer com esses corruptos que estão no planalto? Matar, matar um por um. Colocar todo mundo no paredão e pow! Miolo de corrupto para tudo que é lado.
─ Mas o povo fica de braços cruzados, não fazendo absolutamente nada a respeito.
─ Isso porquê o povo brasileiro é pacífico, passivo. Se fosse nos EUA ou na Rússia, você veria só... não ia ter escapatória além da Revolução. Agora, por que ninguém organiza uma guerrilha ou algo assim? Porque só tem preguiçoso aqui. E temos que lembrar que preguiça é pecado capital.
─ E tem que ser mesmo, neguinho não quer trabalhar não! Outro dia eu estava passando perto da Federal e vi um pichação... por isso que gentinha porca em?
─ Pichação? Isso é coisa de universitário? É coisa de malandro isso sim.
─ Mas sim, nessa pichação estava escrito “Presidente, tire as tropas do Haiti!” Se eles realmente quisessem isso teriam montado um enorme movimento para isso. Eu mesmo iria apoiar.
─ Eu não, o Brasil precisa de colônias.
─ Colônia o quê Ricardo?
─ Sim, colônias. Os EUA têm suas colônias, por quê a gente não as têm? Porque somos passivos, isso sim. A gente deixou a Bolívia escapar, não podemos abrir mão do Haiti não, meu caro.
─ Pra que serve o Haiti? Lá só tem... bem, isso cá entre nós, okay?
─ Okay.
─ Lá só tem pobre e malandro.
─ Sim, sim... mas um pouco de verde no mapa do Caribe não caí mal não, né?
─ Se nós não conseguimos controlar os malandros e pobres daqui, como iremos controlar os de fora, ein?
─ Isso é problema do governo, do governo, não venha me meter nessa. O governo é responsável pela segurança pública.
─ Ele não é não, se fosse não estaríamos presos em nossas casas.
Alberto riu como um tubarão, se tubarões rissem.
─ Mas você sabe por quê? Porque só tem corrupto no governo, só tem isso. Não tem um honesto lá, nenhum. Por isso que não voto mais, sempre justifico. Mandei meu título de eleitor lá para o interior mais roceiro que tem.
─ Eu votei, mas com consciência.
─ Consciência o quê? Consciência não leva ninguém a lugar nenhum.
─ Eu votei em meu irmão.
Alberto voltou a rir.
─ Mas é impressionante como tem corrupto nesse país... outro dia estava em um restaurante, consegui fazer um esquema para não pagar todos os couverts. Até o garçom é corrupto.
─ Todo mundo querendo tirar uma lasca.
─ É por isso que o Brasil não vai para frente. Se não houvesse mais gente honesta como eu e você a gente superaria todos os rankings. O Brasil tem tudo para isso, menos esse povinho.
─ Por sinal, e os sem-terra. Tem tanta terra aí, e eles ficam invadindo fazenda. Aí, aí.
─ Né não? Bando de malandro.
─ Pobre é assim, você dá a ele uma meia ele já tá querendo o seu guarda-roupa todo.
─ Bem, a conversa tá boa, mas tenho que ir pegar as crianças na escola.
─ Vá lá, a gente se vê mais tarde.
─ Até.
A prática do especismo acontece em diversos lugares, porém é na alimentação que ele floresce com maior notoriedade e visibilidade. O hábito de consumir carne, além de laticínios e ovos, tornou a alimentação da maioria da sociedade um quadro horrendo do mais mórbido especismo. Claro, o especismo não para no prato, ele se estende nos vestimentos, nos produtos de limpeza e farmacêuticos, na linguagem (“espírito de porco”, “Atirei o pau no gato”, entre outras pérolas), nas religiões e em quase todo tipo de atividade humana imaginável. A humanidade está impregnada do especismo.
As justificativas são as mais diversas e de todos os cantos: religiosas (apesar de teólogos antiespecistas), morais (apesar de filósofos antiespecistas), biológicas (apesar de pessoas como eu, que aboliram boa parte do especismo em sua alimentação), científicas (apesar dos cientistas antiespecistas) ou simplesmente pela natureza. O curioso, talvez, seja a semelhança muito próxima entre as justificativas do especismo com o do racismo: a de que Deus conferiu o domínio (no sentido de poder fazer o quê quiser, apesar de ser uma criação também divina, até mesmo crueldades típicas do satanás) sobre os animais não-humanos aos humanos; a de que seres humanos por possuírem determinadas virtudes têm direitos enquanto os não-humanos não os têm (essa é ainda mais perigosa, como explicarei no próximo parágrafo); a de que seres humanos são superiores a todos os não-humanos por simplesmente serem seres humanos; a de que seres não-humanos são os melhores modelos para testarem produtos ou técnicas a seres humanos; ou a de que o fato dos seres humanos serem seres humanos os fornecem direitos. Caso você venha a substituir “animais não-humanos” por raça/sexo diferente e “humanos” por sua raça/sexo, você terá um discurso racista ou sexista pronto. Obviamente, apenas o argumento científico será válido e aceitável logicamente (apesar de imoral).
Agora, um das justificativas mais ouvidas por um antiespecista é a de que as virtudes inerentes aos membros de nossa espécie serem as que nos fornecem nossos direitos. Tais virtudes normalmente estão ligadas à, ou simplesmente a é, inteligência. O problema começa com nossos representantes mais novos, que são menos inteligentes do que vários animais não-humanos. Portanto, eles não teriam direitos. Claro, aí apresentam a defesa por ter alguém que se importe com eles, que seriam seus país. Se não os fossem, seria a espécie ou coisa parecida. Se assim for, o fato de haverem pessoas antiespecistas protegeria todos os animais não-humanos, mas não é assim como funciona. O mesmo ocorre àqueles que não possuem capacidade cognitiva dentro dos padrões humanos, assemelhando-se a outros animais não-humanos; se fosse assim eles também não teriam direito. Portanto, a virtude da inteligência não pode ser o que nos confere nossos direitos fundamentais. Pensar de tal forma iria justificar a matança trivial de indivíduos com direitos já consolidados, como ocorre com os animais não-humanos.
Além dessas, ainda hão as justificativas mais trívias que são o gostar de comer carne ou de fazer e ver animais não-humanos sofrerem em nome do prazer e do entretenimento. O primeiro é fútil, comparado com as consequências nefastas que estão ligadas (se essa justificativa fosse aceitável e se fosse comprovado que carne humana fosse deliciosa, seria justo o canibalismo não-voluntário) enquanto o segundo não merece comentários devido a sua doentia loucura e insanidade.
Não irei mais me debruçar em cima de argumentos pró-especistas, além da defesa daqueles que são antiespecistas, pois isso iria requerer um texto muito maior do que o que proponho e fugiria da questão a qual estou expondo. Porém, àqueles que queiram conhecer mais, recomendo o livro Jaulas Vazias de Tom Regan.
A permanência, portanto, dessa ideologia no seio de nossa sociedade é de grande perigo a ordem moral contemporânea. Sua lógica nos permite regressar a realidades morais repugnadas por nossa civilização, realidades as quais eram marcadas por justificativas fracas e infundadas (como aquelas que sustentam o especismo na atualidade) para ações covardes e cruéis sem nenhum sentido contra membros de nossa própria espécie.
Seu colégio, o Colégio Nacional Elói de Sá, ficava na praça Almirante Cláudia Almeida, cujo meio era demarcado por uma imponente estátua veicular da famosa líder revolucionária. Porém, da janela do ônibus apenas se conseguia ver uma nuvem cinza que se assemelhava, vagamente, àquela estátua. O resto não passava de névoas de verde e marrom, em meio da chuva torrencial.
Ao sair do ônibus, Liberato correu, quase tropeçando, para dentro do colégio. Encontrou a portaria quase que abandonada, tendo como responsável apenas um segurança em vez dos três que normalmente cumprimentava diariamente:
─ Bom dia.
─ Bom dia, Liberato.
A maioria dos funcionários deveriam ter se negado a sair de casa devido a chuva, o fato de ser um feriado nacional colaborou na evasão massiva.
Liberato corria. Mas sua pressa não era devido sua grande e legítima vontade de assistir a aula de Atualidades, mas sim por causa da intolerância do professor com qualquer atraso, faça chuva, faça sol, e sua natural necessidade de aprovação na matéria para concluir o curso. Quando abriu a porta, deparou-se com o professor carrancudo:
─ São horas, Liberato?
─ Bom dia professor.
─ Vamos, sente-te e permaneça em silêncio. Já bastou a distração que causaste agora, viste?
Por ironia do destino, o professor era vizinho de Liberato, mas sempre o negava uma possibilidade de o dar carona. Suas justificativas eram fracas ou até mesmo infundadas e descaradas mentiras, o que causava um grande enfurecimento na alma de Liberato.
A monotonia da aula de Atualidades era uma constância para os estudantes do Elói de Sá, a sua falta de dinamismo e método educacional ultrapassada deixavam a aula quase que intolerável para qualquer um assistir. Porém, o cenário alterava-se de forma substancial quando a polêmica se instalava na sala de aula. Isso só ocorria quando, para o azar de Liberato, as bases ideológicas de seu amado partido eram colocados em pauta e atacadas sem dó.
─ Silêncio!
O professor, certamente autoritário, não tolerava a mínima conversa fiada em suas aulas, tanto as paralelas quanto as perpendiculares. A forma a qual impunha sua visão de mundo aos estudantes era tão evidente, que apelidavam a aula dele de “aula de Doutrinação”. Para ele, o Partido Ecologista não passava do maior reduto de hipócritas e corruptos, a fonte de todos os problemas que o país era castigado.
─ Que dia é hoje?
─ Dia da Revolução, professor.
─ Dia da Revolução ou seria o Dia do Entreguismo? Do do Golpe? Mas da revolução? Me poupem. Essa suposta revolução não passou de um tremendo golpe muito bem arquitetado e planejado. Esse discurso de revoluçãozinha foi apenas feita para enganar o povo. Mas não foi feito para enganar a vocês. Vocês precisam entender que esse golpe não passou de uma conspiração ecologista internacional. Nada mais, nada menos do que isso.
Prontamente um colega de sala de Liberato, conhecido por ser um grande bajulador desse infame professor, levantou a mão e, quando a palavra foi dada a ele, passou a discorrer um discurso de total apoio ao do mestre:
─ Realmente, desde que o Partido Ecologista assumiu o poder estamos economizando e racionando energia, água e até comida! E olhe que nós não temos falta desses recursos, simplesmente é por capricho ambientalista deles. Nem carne sequer agora podemos comer! Nem carne! Até carne é “ecologicamente incorreta"! Isso é um ataque as pilares de nossa civilização, né professor?
─ Exatamente, uma afronta a nossos princípios básicos.
Liberato já não aguentava mais. Interviu sem muito pensar, sem hesitação:
─ Isso é aula de Atualidade ou uma aula de Doutrinação Subversiva? Me parece ser o segundo, professor.
─ Silêncio! Peça permissão antes de abrir a boca em minha sala de aula. Mas sim, que seja o que tu falaste, o que tu farás então? Me denunciar?
O professor riu, mas riu um riso contido. Porém esse riso não foi o suficientemente discreto ao ponto de passar imperceptível a todos os alunos silenciados e, sobretudo, Liberato. O nervosismo passou a consumir Liberato por completo, ele iria o denunciar.
─ Sim, é isso que farei, o denunciar!
─ Me denunciar Liberato? Tu passaste de todos os limites, saía de minha sala! E não volte na próxima aula, tu estás suspenso dela.
─ Eu estava pensando já em me retirar. E não se preocupe em me ver na próxima aula, pois ela nem sequer irá existir! Lhe garanto isso, professor.
O professor ficou extremamente sério diante da gravidade do quê podia vir, porém continuo a dar sua suposta aula com poucas interferências mentais e de seus pupilos.
Liberato saiu da sala enfurecido, desceu as escadas correndo e logo estava na rua molhada. A chuva já havia parado, mas a água ainda não desaparecera completamente. Logo no outro lado encontrava-se seu próximo destino: a Delegacia Especial Política e Ecológica, responsável por crimes políticos e aqueles cometidos contra o meio-ambiente, conforme o Ato Ecológico.
Ao chegar na delegacia, Liberato teve muita sorte: encontrou policiais de plantão dentro daquele prédio intimidador:
─ Senhor, em que posso lhe ajudar?
─ Tenho uma denúncia de subversão.
─ Olhe, caso seja um trote saiba que existe uma punição que realmente é aplicada.
─ Não, não é um trote.
─ Se realmente não o for, preencha esse formulário.
O oficial entregou-lhe um extenso requerimento de inquérito sobre a tal atividade subversiva, mais de vinte campos a serem preenchidos. Exigia-se detalhes com tremenda precisão, como o horário e local do crime, nomes de testemunhas, transcrições fiéis das falas subversiva e outras muitas informações preciosas (e outras inúteis). Sorte de Liberato que sua mente não o traíra, pois nenhuma informação ele não sabia dar. Finalmente o formulário estava preenchido e foi entregue sem maiores delongas.
Ao sair da delegacia, Liberato sentia-se renovado. Tinha feito sua benfeitoria do dia: salvar seus colegas, e outros futuros estudantes que os sucederiam, de um profissional subversivo como aquele. Além do mais, o professor também aprenderia a dar-lhe carona, de uma vez ou outra.
O relatório do presidente da primeira Sessão do Comitê Revolucionário Militar, General Malheiros, fez a euforia alegremente disciplinada espalhar-se pelo salão principal do Palácio Presidencial. Lá estavam os principais generais, brigadeiros e almirantes; aliados com um único real objetivo: aumentar os seus próprios soldos em um nome nobre, que ainda não encontraram.
Contudo, Malheiros não havia planejado o depois da operação — sua formação tradicional restringia suas habilidades e conhecimentos políticos. Indo contra sua vontade, teve que expor aos oficiais a falta de planejamento pós-golpe, mostrando sua incompetência.
— Senhores e senhoras, tenho que, contudo, expor-vos uma verdade: não sei bem o que mais faremos cá. As opções são inúmeras, mas um plano escolhido não há. Agora abro a sessão para dirigir, a mesa, sugestões.
O oficialato estremeceu-se: tinham o poder, mas não sabiam o que fazer com ele. E como o general mais poderoso da nação não pensou nessa situação? Quanta imprudência, um verdadeiro incompetente e fanfarrão. Porém, não havia espaço para condenar abertamente o líder, apenas para obedecer a sua ordem de elaborar e revelar sugestões. A grande maioria dos oficiais não tinham sequer uma formação política básica (aqueles que o tinha fingiam não o ter para aliviar suas mentes da árdua tarefa de pensar racionalmente), porém os comandantes das armas e uma pequena quantidade de oficiais a tinha. A primeira a pronunciar-se foi a sagaz e acadêmica, porém louca, almirante Almeida.
— Senhor, vejamos bem a situação que o senhor nos colocou: estamos no poder mas não sabemos o que fazer com ele, — ria-se diante da constrangida audiência — agora precisamos solucionar no mínimo dois problemas: justificar nossa “intervenção” no governo e traçar o fado para nosso papel aqui. Através de meus estudos jurídicos, dos quais todos vos sabem, concluo que há embasamento constitucional para nossa intervenção. Bastamos argumentar que “algum dos poderes ameaçaram os valores democráticos e republicanos da nação”. Digo, podemos encontrar alguma prova que o infame presidente não passava de um monarquista e pá: resolvemos o problema. E então, o que me dizem?
A almirante Almeida não parava de rir-se. A loucura risonha da comandante naval não assustava mais ninguém, pois já era de conhecimento público. Sua fala foi respeitada diante dos doutorados que recolhera em todo mundo. O único que resolveu intervir foi o antigo chefe da Segurança Pessoal presidencial, o homem que tinha maior contato com o presidente.
— Monarquista o presidente não era, mas corrupto sem dúvidas. Basta irmos para a mansão dele na ilha que veremos muito bem do que estou falando.
— Então, temos nosso pretexto senhores e senhoras oficiais. Agora basta formularmos um plano para sair daqui e garantir nosso aumento perpétuo. Algum de vocês têm uma ideia?
Um oficial de azul e branco se moveu pela multidão sisuda. Se tratava do brigadeiro Eloí, conhecido por seus infames planos megalomaníaco que envolviam tomar o porta-aviões da marinha, tornando a aeronáutica a mais abrangente e poderosa força armada. Porém, Almeida estragou os planos de Eloí, criando um clima tenso entre os dois oficiais e as duas forças armadas.
— Senhor, temos três ou quatro possibilidades. A primeira seria bem simples: nos perpetuar no poder. Assim asseguraríamos nosso aumento, nosso poder e nossa vontade até quando sairmos do trono presidencial. Nossos colegas de armas do estrangeiro podem nos ajudar nessa operação, por ser já uma especialidade deles: governar. A segunda alternativa é meio arriscada, pois vai comprometer nosso pretexto. Damos o poder ao Partido Restaurador, que obviamente irá restaurar a monarquia, e então nós sustentamos o novo regime. Isso, como a almirante já afirmou, seria inconstitucional. A terceira possibilidade seria dar o poder ao Partido Ecologista, que não passa de uma facção sem real ideologia do Partido Verde Democrático, que seria nosso marionete na questão do soldo. Para mim, a primeira opção seria sem dúvidas a melhor.
Os oficiais se estarreceram.
— Senhor brigadeiro Eloí, não podemos admitir que nossa imagem de defensores da democracia, da liberdade e da república seja manchada por tão pouco! Somos, até hoje, os únicos no continente a manter-nos fiéis aos princípios que tangem nossa sociedade. Só a menção dessas suas palavras são inadmissíveis!
Era o General José Carlos Guerra, cuja fala tinha sido finalizada por um barulho desconexo de palmas, xingamentos, palavras de ordem e vaias. Não se sabia quem estava louvando quem, quem estava vaiando quem. Malheiros logo percebeu que estava perdendo o controle sobre o oficialato. Sacou sua arma e disparou três tiros contra o teto, só no terceiro as pessoas acalmaram-se e quietaram-se. Apenas os risos de Almeida continuavam, descontroladamente. O gesso do teto caiu em cima do paletó de Eloí, o irritando profundamente. Só depois de alguns suspiros Malheiros discursou.
— Oficiais, Guerra tem razão: não podemos assumir o poder do país puramente, de forma tão despótica, seria contra nossos ideais. E Eloí, a terceira opção é a mais racional, sem duvidas. Algum outro oficial-de-armas tem algo a acrescentar, alguma sugestão ou objeção à decisão da mesa?
Malheiros deu a palavra para quem o quisesse, mas não percebeu que ainda apontava a sua pistola para a multidão fardada, muda pela ameaça e falta de criatividade momentânea.
— Então, que assim seja! Próximo mês, começamos a fazer a transição para a verdadeira democracia, com uma nova constituição e com o Partido Ecologista, eleito, no poder. Viva a República!
— Viva a República.
Os gritos de “Viva a República” foram tímidos, porém onipresentes. O destino da nação estava nas mãos do Partido Ecologista de agora em diante, pois os militares não queriam ser vistos como ditadores nem admitiam a verdadeira democracia eleitoral. Fora isso, não havia marionete melhor por perto.
O Brasil tremeu durante aqueles poucos segundos pelas 19:00 horas, horário de Brasília. Era um momento de luto, um momento de tremenda morbidade enquanto a Abertura de “O Guaraní” tocava pela rádio. Todos sabiam que não era coisa, não poderia ser jamais coisa boa quando a nação inteira ouvia a mesma melodia na rádio: era a Hora do Brasil.
A nação não queria uma hora para si, ela queria que todas as horas fossem suas.
Olha só que peixe azul lindo... e esse verde, brilhosos? Vocês tem um roxo?
Ele não nasceu assim, o fizeram assim.
Dizem que é pintura.
Um roxo! Que lindo... eu quero um.
Eles não duram muito, sabe? Nem podem conviver no mesmo aquário, se mutilam, canibalismo.
Que louco, esses peixes são lindos mas tão loucos... quanto é o roxo?
Vinte reais.
E vendem-os por vinte reais, na promoção!
Dengue, dengue, dengue. Eu avisei... "vai rolar dengue nessa cidade!" Quem me ouviu? Em? Quem me ouviu? Como se tudo a mim dependesse, a ir na casa alheia para tomar as devidas providências que a secretaria cansou de ensinar. "Não deixar tampas abertas, garrafas vazias viradas para cima..." etc, etc, etc. Cansei. O povo tem mais é que se foder todo mesmo. Tem que aprender na pele, por bem ou por mal, que a dengue mata. Sangra e mata.
Reações adversas/colaterais
Os efeitos colaterais mais comuns (entre 10 e 47%) foram no âmbito pessoal, profissional e reações cutâneas, incluindo destruição de lares, desestabilização de economias nacionais, falência pessoal e da empresa e coceira.