O almoço chegou a mesa e os cidadãos puseram-se a comer.
A senhora cidadã, querendo entreter-se e informar-se enquanto comia, ligou a televisão.
Uma mulher sentada na maca em estado de euforia, preocupante, preocupante, outra mulher, uma psiquiatra, e seu enfermeiro.
Me beije, me ame, me faça tua, te faça meu! Meu amor, amor, amor, amor, a mulher não parava de repetir a palavra tão-dita, como se fosse um disco de vinil arranhado (que nem em museus hoje se acham).
No meio da confuso que era a sala de cartas da seção de Correios e Telégrafos, o funcionário solitário procurava organizar a quantidade infinita de cartas que estavam no chão da sala, para mandá-los para os respectivos deparamentos adequados. Enquanto remexia a montanha de papel, deu-se com uma carta em um envelope vermelho, escrito URGENTE em letras brancas. Abriu e leu:
Caro Senhor Deus,
O político estava tentando, com aparente sucesso, conseguir a atenção de sua plateia meio que apática.
— Senhores! Tenho ótimas notícias para vós!
Com falso entusiasmo, o engravatado pegou do vácuo um pendrive e inseriou-o no laptop que estava acima de sua mesa. Quase que imediatamente, a apresentação de slides projetou-se na parede branca da sala em que todos estavam. Diante de gráficos e tabelas crescentes, projetos de leis sem-fim e fotos de relevância, a plateia aumentou sua simpatia.
Ives estava sentado naquela cadeira fazia horas, a sua senha era a 90 e ainda estava na 84. Seis posições atrás. Pode parecer pouco, mas considerando-se que cada um estava sendo atendido de 20 em 20 minutos, com longas esperas incompreensíveis, em meio de risadas dos servidores, saber-se-ia que Ives ficaria, no mínimo, mais duas horas lá. O calor ainda tornava a espera muito mais penosa, pois o suor evaporava dentro daquela pequena sala, tornando o ambiente extremamente úmido e a pele pegajosa. Um saco, sem dúvidas.
Era uma noite típica de verão tropical, marcado por seus mosquitos imperdoáveis e friagem inconstante. Corri freneticamente pelas escadas infinitas de meu pequeno prédio de apartamentos, até que encontrei minha porta. A claridade da normalidade, que era visível através da fenda que havia debaixo da porta, havia desaparecido. Havia apenas uma explicação, que me causava a maior de todas as náuseas: que o fósforo finalmente apagou-se.
— Essa é a verdade.
A confissão do prefeito, sobre o seu envolvimento no escândalo dos sequestros, horrorizava ainda mais a indignada plateia. Desde de o início do seu mandato, diversas pessoas haviam sumido de suas casas e nunca mais foram achadas. Diziam as más línguas que haviam sido sequestradas pela Agência de Inteligência, com ajuda do prefeito — o que faria bastante sentido, pois apenas com sua eleição as pessoas começaram a desaparecer.
Ele acordou cedo como sempre. Seu compromisso com para o colégio não parecia ter fim. Acorda, já está na hora Henrique! Já estou indo. As aulas eram sim, insuportáveis para ele, mas não era como se ele tivesse alguma escolha. A questão era passar no vestibular, sua vida dependia nisso, ao menos era isso que tentavam colocar em sua mente. Passar, de primeira e na Federal. Continuaria acordando cedo, indo às aulas de matérias que não tinha o mínimo interesse e que não teria verdadeira utilidade futura.
O braço levantado com o dedo estendido para o infinito em um ângulo de 90º. Essa é a indicação para pedir que o ônibus pare naquele ponto, e não eu estava podendo a usar pela ausência de um buzu que passasse no Salvador Shopping! Faziam-se 20 minutos, meu corpo estava torrando no sol soteropolitano do meio dia até que finalmente o Barroquinha chegou ao ponto. Quase que não parava, tinham uns três ônibus em sua frente que, possivelmente, obstruiriam a visão do motorista.