Prosa

Violência no Almoço

O senhor cidadão encabeçava a mesa, mas não ditava as ordens: a senhora cidadã era quem as fazia. Ela ordenou a senhora empregada doméstica que fizesse um almoço-padrão: arroz branco, feijão preto com linguiça e outras carnes entre ele, uma salada qualquer e, a parte principal, o bife. A senhorita cidadã, filha do senhor cidadão e da senhora cidadã, marcou presença na mesa com seu garfo e sua faca.

O almoço chegou a mesa e os cidadãos puseram-se a comer.

A senhora cidadã, querendo entreter-se e informar-se enquanto comia, ligou a televisão.

Amar é Doença

Me faça rir, me faça ser feliz, me surpreenda me chamando de amor, só seu. Branco. A sala era toda branca, com um cheiro impregnador de iodo e outros remédios indecifráveis.

Uma mulher sentada na maca em estado de euforia, preocupante, preocupante, outra mulher, uma psiquiatra, e seu enfermeiro.

Me beije, me ame, me faça tua, te faça meu! Meu amor, amor, amor, amor, a mulher não parava de repetir a palavra tão-dita, como se fosse um disco de vinil arranhado (que nem em museus hoje se acham).

Deus S.A. e a Menina Genial

No meio da confuso que era a sala de cartas da seção de Correios e Telégrafos, o funcionário solitário procurava organizar a quantidade infinita de cartas que estavam no chão da sala, para mandá-los para os respectivos deparamentos adequados. Enquanto remexia a montanha de papel, deu-se com uma carta em um envelope vermelho, escrito URGENTE em letras brancas. Abriu e leu:

Caro Senhor Deus,

Da Política Pecuarista

— Senhoras e senhores!

O político estava tentando, com aparente sucesso, conseguir a atenção de sua plateia meio que apática.

— Senhores! Tenho ótimas notícias para vós!

Com falso entusiasmo, o engravatado pegou do vácuo um pendrive e inseriou-o no laptop que estava acima de sua mesa. Quase que imediatamente, a apresentação de slides projetou-se na parede branca da sala em que todos estavam. Diante de gráficos e tabelas crescentes, projetos de leis sem-fim e fotos de relevância, a plateia aumentou sua simpatia.

O Terceiro Amigo, Seus Outros Dois Amigos e Gabriela

Na frente da entrada do cinema, no Shopping, havia um grupo de adolescentes inquietos. Uma garota, tal de Gabriela, estava despedindo-se de seus amigos, beijando-os no rosto como a etiqueta mandava. O terceiro amigo ficou alguns segundos fitando Gabriela, enquanto ela despedia-se. A atração que ele tinha por ela estava muito clara, podendo ser observado por qualquer um que estive por perto, sobretudo seus outros dois amigos. Logo depois que Gabriela finalmente foi-se embora, o terceiro começou a suspirar longamente e de forma profunda.

Cartório

Ives estava sentado naquela cadeira fazia horas, a sua senha era a 90 e ainda estava na 84. Seis posições atrás. Pode parecer pouco, mas considerando-se que cada um estava sendo atendido de 20 em 20 minutos, com longas esperas incompreensíveis, em meio de risadas dos servidores, saber-se-ia que Ives ficaria, no mínimo, mais duas horas lá. O calor ainda tornava a espera muito mais penosa, pois o suor evaporava dentro daquela pequena sala, tornando o ambiente extremamente úmido e a pele pegajosa. Um saco, sem dúvidas.

Aleatoriedade Número 2 (ou Do Fósforo Que Se Apagou, Gerando Vírus De Espelho Que, Por Sua Vez, Resultou Na Inutilização E Destruição Dele Por Parte De Seu Proprietário, Um Vampiro Que Usa Cueca Feminina)

Era uma noite típica de verão tropical, marcado por seus mosquitos imperdoáveis e friagem inconstante. Corri freneticamente pelas escadas infinitas de meu pequeno prédio de apartamentos, até que encontrei minha porta. A claridade da normalidade, que era visível através da fenda que havia debaixo da porta, havia desaparecido. Havia apenas uma explicação, que me causava a maior de todas as náuseas: que o fósforo finalmente apagou-se.

O Trágico Fim do Prefeito e Sua Cidade

— Essa é a verdade.

A confissão do prefeito, sobre o seu envolvimento no escândalo dos sequestros, horrorizava ainda mais a indignada plateia. Desde de o início do seu mandato, diversas pessoas haviam sumido de suas casas e nunca mais foram achadas. Diziam as más línguas que haviam sido sequestradas pela Agência de Inteligência, com ajuda do prefeito — o que faria bastante sentido, pois apenas com sua eleição as pessoas começaram a desaparecer.

Mais um dia na vida de Henrique

Ele acordou cedo como sempre. Seu compromisso com para o colégio não parecia ter fim. Acorda, já está na hora Henrique! Já estou indo. As aulas eram sim, insuportáveis para ele, mas não era como se ele tivesse alguma escolha. A questão era passar no vestibular, sua vida dependia nisso, ao menos era isso que tentavam colocar em sua mente. Passar, de primeira e na Federal. Continuaria acordando cedo, indo às aulas de matérias que não tinha o mínimo interesse e que não teria verdadeira utilidade futura.

Ônibus Barroquinha e o Motorista Maldito

O braço levantado com o dedo estendido para o infinito em um ângulo de 90º. Essa é a indicação para pedir que o ônibus pare naquele ponto, e não eu estava podendo a usar pela ausência de um buzu que passasse no Salvador Shopping! Faziam-se 20 minutos, meu corpo estava torrando no sol soteropolitano do meio dia até que finalmente o Barroquinha chegou ao ponto. Quase que não parava, tinham uns três ônibus em sua frente que, possivelmente, obstruiriam a visão do motorista.

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