Prosa

As Domésticas Terroristas Revolucionárias

— Gabriela! Gabriela!

A vizinha batia na porta da casa de Gabriela desesperadamente.

— Gabriela!

Quando Gabriela abriu a porta deparou-se com a cara de pavor extremo que assumia sua vizinha.

— O que foi Suzi?

— Gabriela, nós temos que sumir. Temos que sumir, e agora!

A Demissão do Doutor

— Senhor?

O faxineiro estressava-se: tinha que limpar o chão mais uma vez, pois aquele sujeito tinha sido o décimo a pisar no recém lustrado piso de mármore.

— Senhor?

— O quê é?

Dona Iasmim, a tevê, o golpe e a sociedade nacional

Dona Iasmim estava observando o seu relógio, enquanto esperava o tempo passar: já eram 8,4, horário do jornal. Prontamente, saiu a procura eufórica de seu controle remoto, que estava logo acima da televisão. Quando o pegou, estava exausta e tonta por causa de sua ansiedade de se “informar” sobre os acontecimentos nacionais e mundiais. Caiu na sua poltrona mofada e desleixadamente ligou a tevê usando apenas um dedo. A tevê estava sintonizada em uma canal de entrevistas.

Panfleto Ecologista Número 67

O Partido Ecologista finalmente assumiu a parte que realmente o cabe no país: a de o coordenar, em nome do povo, da pátria e do meio-ambiente. Através da bem-sucedida aliança feita entre o partido e as digníssimas Forças Armadas, pode-se libertar a nação das garras das reacionárias forças que desgovernavam enquanto destruíam o país. A derrota de tais forças deverá ser relembrada e celebrada pela sociedade como a Revolução Ecologista.

A Sociedade da Pasta Rosa

O Velho, sim... os cabelos brancos não disfarçavam a cara de mafioso que se acentuava quando sorria. Na verdade não importa quem era o Velho, nem quanto ele tinha em sua conta corrente, mas sim o que ele tinha em seu colo: uma pasta rosa. Essa pasta rosa, a Pasta Rosa do Velho, não só era companheira permanente do velho, mas também de todos e todas. Logo ao nascer, o cidadão recebia a pasta rosa, que jamais poderia abrir, tendo como pena ter sua ignorância quebrada.

Pronunciamento Presidencial

— Em momento tão delicado da história da nação, V. Ex., o presidente da república, fez um pronunciamento histórico e patriótico. A atenção de todos os cidadãos é de extrema importância.

Evento Inoportuno, Filosófico e Aleatório

Eu e um amigo andávamos na noite escura iluminada pelos holofotes públicos da orla hoteleira de Salvador. Vinhamos talvez do Campo Grande, talvez da Barra, portando nossas mochilas relativamente leves e vazias. Ele tinha um compromisso, cujo assunto não me interessava, em algum quarto de um famoso hotel. Eu apenas estava o acompanhando. Mas nesse hotel também estava acontecendo um evento, onde amigos meus anunciaram suas participações.

Casal

— Sei que tudo que tu diz é mentira, tudo! Sempre soube, mas nunca atentei para o fato mais nefasto que havia em minha frente!
— Mas...
— Não haverá mais mas, sei que tudo que dirá não passará de desculpas para consolidar a grande mentira que tu és.
— Deixe eu falar, pelo menos!
— Não escutarei-te!
— Pois, que assim seja. Viva na mentira que criaste, achando que quem mente sou eu!

A Grotesca Pintura do Primo do Mordomo

— Senhor?

— Mordomo, onde está o revolver que pedi?

— Perdão, senhor, hei de traze-la.

Momentos depois, o mordomo está com o tal revolver, cromado, em uma fina almofada vermelha.

— Mordomo, tu sabes que eu gosto muito de ti, né?

— Sim, meu senhor.

— Pois bem, quero saber se tu gostarás de mim depois do que farei.

— O que farás?

O senhor pegou a arma, apontou em direção ao mordomo sem piedade.

— Meu senhor!

O mordomo entrou em desespero.

— O que fiz contigo, além de ter o servido lealmente?!

O senhor descarregou a arma, sem piedade alguma.

— Não és tu, és essa pintura grotesca de s

A Mulher de Vestido Vermelho

Ela estava no mesmo ônibus verde-branco que eu, logo atrás, querendo descer no mesmo ponto. Vestia um vestido vermelho, de flores amarelas, brancas... com uma calça, ou algo parecido, bege escuro por dentro. Definitivamente uma garota cor pastel, como diria a comunidade no orkut. Estava ouvindo alguma música, com um tocador de mídia de fone branco, mas não saberia dizer se era um iPod. Acho que estudava, com papeis numerados em seu peito, nada certo. Caminhei lentamente, só para me atrasar e saber o seu destino, que era quase o meu.

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