Factual

Da Periculosidade do Especismo

O especismo, palavra muito pouco conhecida pelos leigos no assunto, sobretudo não-vegetarianos éticos, consiste na discriminação (no sentido da desconsiderações dos interesses inerentes ao discriminado) arbitrária de um indivíduo ou coletividade pela espécie a qual ele ou ela pertencem. Portanto, o especismo pertence a mesma “família” do racismo, sexismo, etarismo e outros ismos que tanto desprezamos na atualidade. Enquanto a maioria dos ismos foram superados ideologicamente, sendo reprimidos socialmente e pelo Estado, o especismo continua quase intacto no seio de nossa sociedade. Felizmente, há quem esteja lutando para que esse infeliz pilar caía e nunca mais se levante.

A prática do especismo acontece em diversos lugares, porém é na alimentação que ele floresce com maior notoriedade e visibilidade. O hábito de consumir carne, além de laticínios e ovos, tornou a alimentação da maioria da sociedade um quadro horrendo do mais mórbido especismo. Claro, o especismo não para no prato, ele se estende nos vestimentos, nos produtos de limpeza e farmacêuticos, na linguagem (“espírito de porco”, “Atirei o pau no gato”, entre outras pérolas), nas religiões e em quase todo tipo de atividade humana imaginável. A humanidade está impregnada do especismo.

As justificativas são as mais diversas e de todos os cantos: religiosas (apesar de teólogos antiespecistas), morais (apesar de filósofos antiespecistas), biológicas (apesar de pessoas como eu, que aboliram boa parte do especismo em sua alimentação), científicas (apesar dos cientistas antiespecistas) ou simplesmente pela natureza. O curioso, talvez, seja a semelhança muito próxima entre as justificativas do especismo com o do racismo: a de que Deus conferiu o domínio (no sentido de poder fazer o quê quiser, apesar de ser uma criação também divina, até mesmo crueldades típicas do satanás) sobre os animais não-humanos aos humanos; a de que seres humanos por possuírem determinadas virtudes têm direitos enquanto os não-humanos não os têm (essa é ainda mais perigosa, como explicarei no próximo parágrafo); a de que seres humanos são superiores a todos os não-humanos por simplesmente serem seres humanos; a de que seres não-humanos são os melhores modelos para testarem produtos ou técnicas a seres humanos; ou a de que o fato dos seres humanos serem seres humanos os fornecem direitos. Caso você venha a substituir “animais não-humanos” por raça/sexo diferente e “humanos” por sua raça/sexo, você terá um discurso racista ou sexista pronto. Obviamente, apenas o argumento científico será válido e aceitável logicamente (apesar de imoral).

Agora, um das justificativas mais ouvidas por um antiespecista é a de que as virtudes inerentes aos membros de nossa espécie serem as que nos fornecem nossos direitos. Tais virtudes normalmente estão ligadas à, ou simplesmente a é, inteligência. O problema começa com nossos representantes mais novos, que são menos inteligentes do que vários animais não-humanos. Portanto, eles não teriam direitos. Claro, aí apresentam a defesa por ter alguém que se importe com eles, que seriam seus país. Se não os fossem, seria a espécie ou coisa parecida. Se assim for, o fato de haverem pessoas antiespecistas protegeria todos os animais não-humanos, mas não é assim como funciona. O mesmo ocorre àqueles que não possuem capacidade cognitiva dentro dos padrões humanos, assemelhando-se a outros animais não-humanos; se fosse assim eles também não teriam direito. Portanto, a virtude da inteligência não pode ser o que nos confere nossos direitos fundamentais. Pensar de tal forma iria justificar a matança trivial de indivíduos com direitos já consolidados, como ocorre com os animais não-humanos.

Além dessas, ainda hão as justificativas mais trívias que são o gostar de comer carne ou de fazer e ver animais não-humanos sofrerem em nome do prazer e do entretenimento. O primeiro é fútil, comparado com as consequências nefastas que estão ligadas (se essa justificativa fosse aceitável e se fosse comprovado que carne humana fosse deliciosa, seria justo o canibalismo não-voluntário) enquanto o segundo não merece comentários devido a sua doentia loucura e insanidade.

Não irei mais me debruçar em cima de argumentos pró-especistas, além da defesa daqueles que são antiespecistas, pois isso iria requerer um texto muito maior do que o que proponho e fugiria da questão a qual estou expondo. Porém, àqueles que queiram conhecer mais, recomendo o livro Jaulas Vazias de Tom Regan.

A permanência, portanto, dessa ideologia no seio de nossa sociedade é de grande perigo a ordem moral contemporânea. Sua lógica nos permite regressar a realidades morais repugnadas por nossa civilização, realidades as quais eram marcadas por justificativas fracas e infundadas (como aquelas que sustentam o especismo na atualidade) para ações covardes e cruéis sem nenhum sentido contra membros de nossa própria espécie.

Da Voz e da Hora do Brasil

O Brasil tremeu durante aqueles poucos segundos pelas 19:00 horas, horário de Brasília. Era um momento de luto, um momento de tremenda morbidade enquanto a Abertura de “O Guaraní” tocava pela rádio. Todos sabiam que não era coisa, não poderia ser jamais coisa boa quando a nação inteira ouvia a mesma melodia na rádio: era a Hora do Brasil.

A nação não queria uma hora para si, ela queria que todas as horas fossem suas.

Peixes Pintados

Olha só que peixe azul lindo... e esse verde, brilhosos? Vocês tem um roxo?

Ele não nasceu assim, o fizeram assim.

Dizem que é pintura.

Um roxo! Que lindo... eu quero um.

Eles não duram muito, sabe? Nem podem conviver no mesmo aquário, se mutilam, canibalismo.

Que louco, esses peixes são lindos mas tão loucos... quanto é o roxo?

Vinte reais.

E vendem-os por vinte reais, na promoção!

A Médica Cor-de-Rosa

A médica
cor-de-rosa
não parava de
falar em seu celular:

Viagens,
aviões e voos
perdidos,
"tem que remarcar".

Quando libertou-se
lentamente pôs
a trabalhar em
seu ofício árduo.

Testou,
anotou,
testou
e carimbou.

Findando-se
os exames
tão insignificantes
quanto um piloto

de avião,

ela interrogou-me.
Falei no congestionamento
que afligia meu
sistema respiratório.

Mas sem clareza.

Ela brincou de advinha:

Ônibus Barroquinha e o Motorista Maldito

O braço levantado com o dedo estendido para o infinito em um ângulo de 90º. Essa é a indicação para pedir que o ônibus pare naquele ponto, e não eu estava podendo a usar pela ausência de um buzu que passasse no Salvador Shopping! Faziam-se 20 minutos, meu corpo estava torrando no sol soteropolitano do meio dia até que finalmente o Barroquinha chegou ao ponto. Quase que não parava, tinham uns três ônibus em sua frente que, possivelmente, obstruiriam a visão do motorista.

A Mulher de Vestido Vermelho

Ela estava no mesmo ônibus verde-branco que eu, logo atrás, querendo descer no mesmo ponto. Vestia um vestido vermelho, de flores amarelas, brancas... com uma calça, ou algo parecido, bege escuro por dentro. Definitivamente uma garota cor pastel, como diria a comunidade no orkut. Estava ouvindo alguma música, com um tocador de mídia de fone branco, mas não saberia dizer se era um iPod. Acho que estudava, com papeis numerados em seu peito, nada certo. Caminhei lentamente, só para me atrasar e saber o seu destino, que era quase o meu.

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